Capítulo 07
A empresa de uma pessoa
João não queria ter uma empresa. Queria instalar ar-condicionado.
João não queria ter uma empresa.
Queria instalar ar-condicionado.
Essa diferença explica uma quantidade enorme de sofrimento desnecessário.
João aprendeu um ofício.
Ficou bom.
Um cliente indicou para outro.
Depois outro.
Em algum momento alguém disse que ele deveria abrir um CNPJ.
João abriu.
Foi assim que, sem perceber, ganhou uma segunda profissão.
Agora também precisava administrar uma empresa.
Tinha que responder orçamento.
Preparar proposta.
Cobrar cliente.
Guardar comprovante.
Emitir nota.
Lembrar quem ainda não pagou.
Saber quanto havia entrado.
Saber quanto podia gastar.
Separar dinheiro para imposto.
Encontrar aquela conversa de três semanas atrás.
Perguntar se o cliente ainda estava interessado.
Comprar material.
Organizar agenda.
Salvar contrato.
João continuava instalando ar-condicionado.
Mas uma parte crescente de seus dias já não tinha nada a ver com ar-condicionado.
Chamamos isso de empreender.
Talvez tenhamos colocado coisas demais dentro dessa palavra.
Uma manicure enfrenta uma versão parecida.
Um fotógrafo também.
Uma confeiteira.
Um marceneiro.
Um professor particular.
Uma arquiteta.
Um mecânico.
Uma pessoa que começou a vender marmitas depois de perder o emprego.
Cada uma possui uma capacidade diferente.
Mas todas acabam recriando, dentro de casa, pequenos pedaços da mesma empresa.
Financeiro.
Comercial.
Contratos.
Agenda.
Cobrança.
Relacionamento.
Documentos.
O mundo antigo ofereceu uma resposta para isso.
Software.
Um software para clientes.
Outro para propostas.
Outro para contratos.
Outro para financeiro.
Outro para emissão de notas.
Outro para agenda.
Outro para marketing.
Depois criamos integrações para que os softwares conversassem.
Depois consultorias para ajudar as pessoas a escolher os softwares.
Depois cursos para ensinar como usar tudo aquilo.
João só queria instalar ar-condicionado.
Talvez tenhamos errado o problema.
Ele não precisa aprender administração.
Não precisa aprender CRM.
Não precisa saber construir um fluxo comercial.
Não precisa olhar um dashboard todas as manhãs.
Precisa conseguir trabalhar para alguém e receber por aquilo.
Todo o resto deveria tentar desaparecer.
Esse será o segundo negócio construído sobre Genesis.
Vamos chamá-lo, por enquanto, de Base.
Base é aquilo que deveria existir embaixo de qualquer pessoa que trabalha por conta própria.
Não importa muito se ela vende bolo ou projeto de engenharia.
Existe uma pequena estrutura que quase todas precisam.
Alguém se interessa.
Uma conversa começa.
Alguma coisa é combinada.
Talvez exista uma proposta.
Talvez exista um contrato.
O serviço acontece.
Existe pagamento.
Existe alguma obrigação fiscal.
Depois talvez exista uma nova conversa.
É quase sempre a mesma história.
Só mudam os detalhes.
Base existe para carregar esses detalhes.
João não abre Base pela manhã.
Não existe razão para isso.
Ele já abre o WhatsApp.
Uma pessoa escreve:
“Quanto fica para instalar dois aparelhos aqui em casa?”
João conversa.
Pergunta onde é.
Pergunta quais aparelhos.
Talvez peça uma fotografia.
Talvez diga que precisa visitar.
Quando existe informação suficiente, aparece uma pergunta pequena.
“Pelo que vocês combinaram, consigo preparar uma proposta. Quer?”
João responde:
“Quero.”
A proposta existe.
Ele não escolheu template.
Não arrastou bloco.
Não digitou CPF duas vezes.
Não configurou validade.
Não procurou logotipo.
Apenas conversou com um cliente.
Mais tarde chega outra mensagem.
“O Carlos aprovou os R$ 1.850.”
Depois:
“Quer que eu prepare o contrato?”
Sim.
Depois:
“A entrada de R$ 700 chegou.”
Depois:
“O serviço está marcado para terça, às 9h.”
João continua sendo técnico.
É essa a intenção.
Se algum dia ele quiser entender o financeiro, pode perguntar.
“Como estou esse mês?”
A resposta também não precisa parecer um balanço contábil.
“Entraram R$ 18.420.”
“Você tem R$ 4.300 a receber.”
“Separei o valor estimado dos impostos.”
“Seu gasto com material aumentou bastante. Quer ver por quê?”
Talvez João diga não.
Ele está cansado.
Aquela análise continua disponível amanhã.
Isso importa.
Informação não precisa exigir atenção apenas porque existe.
Base também não pretende esconder a realidade.
Se João estiver gastando mais do que recebe, precisa saber.
Se existe imposto chegando, precisa saber.
Se três clientes estão atrasados, talvez precise saber.
Mas existe uma diferença entre informar alguém sobre uma decisão e transformar essa pessoa em analista da própria empresa.
Queremos a primeira coisa.
Não a segunda.
Uma pequena empresa poderia possuir capacidades administrativas extraordinárias sem possuir um departamento administrativo.
Essa é a mudança.
Financeiro existe.
João não precisa fazer financeiro.
CRM existe.
João não precisa administrar CRM.
Contratos existem.
João não precisa organizar contratos.
Propostas existem.
João não precisa aprender a fazer propostas.
A infraestrutura aparece quando necessária.
Depois volta a desaparecer.
Se fizermos isso direito, talvez João nem saiba quais sistemas existem embaixo da conversa.
Assim como não precisa saber qual bomba mantém pressão na água de sua casa.
Ele abre a torneira.
Água sai.
Essa é a experiência que buscamos.
E de repente o problema deixa de ser apenas de João.
Porque existem milhões de Joões.
Não exatamente iguais.
Mas suficientemente parecidos.
Pessoas muito boas em alguma coisa que passam uma parte absurda da vida administrando tudo o que existe ao redor dessa coisa.
É o oitenta por cento escondido dentro do vinte por cento.
A parte repetida.
A parte que atravessa profissões.
Não precisamos construir um sistema diferente para cada pessoa.
Precisamos encontrar aquilo que quase todas compartilham.
Receber.
Entender.
Combinar.
Registrar.
Cobrar.
Pagar.
Lembrar.
Guardar.
Essas são capacidades.
O restante pode ser composto ao redor delas.
Isso também modifica profundamente a afiliação.
Até agora Rafael precisava encontrar corretores.
ViaCorretor é valioso.
Mas existe uma condição.
A pessoa precisa trabalhar com imóveis.
Rafael passa o dia inteiro ouvindo histórias.
O passageiro é eletricista.
Outra possui uma loja.
Outra faz cílios.
Um homem trabalha com manutenção de piscinas.
Uma mulher começou a vender doces.
Um rapaz produz vídeos para empresas.
Antes, quase todas essas conversas terminavam sem relação com Genesis.
Agora não.
Rafael não ganhou simplesmente um segundo produto para vender.
Ganhou uma capacidade muito mais interessante.
Pode escutar.
A mulher conta que está cansada porque passou a noite fazendo cobrança.
Rafael não precisa descobrir qual funcionalidade apresentar.
Diz apenas:
“Tem uma coisa que talvez te ajude a não precisar fazer isso desse jeito.”
O sistema sabe que ela não é corretora.
Não apresenta ViaCorretor.
Apresenta Base.
Outro passageiro comenta que a esposa é corretora.
ViaCorretor.
Outro possui uma pequena imobiliária e também sofre com financeiro.
Talvez os dois.
O afiliado não administra um catálogo.
Não decora tabela de produtos.
Não precisa estudar qual plano serve para cada perfil.
Essa seria apenas outra forma de colocá-lo para trabalhar para o software.
Ele traz contexto.
A Inteligência encontra a capacidade adequada.
A diferença é gigantesca.
Antes Rafael possuía uma oferta.
Agora possui um pequeno repertório de soluções.
Com o tempo esse repertório crescerá.
Não queremos cem produtos jogados em uma prateleira.
Queremos capacidades que possam se combinar.
Uma pessoa pode precisar de Base.
Outra de ViaCorretor.
Outra talvez precise de uma coisa que ainda não existe.
Essa terceira situação é especialmente importante.
O afiliado pode dizer:
“Conversei hoje com três pessoas que fazem manutenção de condomínio. Todas reclamaram da mesma coisa.”
Isso é informação valiosa.
Talvez não exista produto.
Ainda.
Mas existe uma necessidade.
Genesis começa a enxergar através das pessoas que participam dele.
Não através de uma pesquisa de mercado feita uma vez por ano.
Através de milhares de conversas reais.
Uma necessidade aparece.
Outra pessoa percebe a mesma coisa.
Mais alguém encontra uma forma de resolver.
Uma capacidade nasce.
Talvez vire uma Skill.
Talvez um serviço.
Talvez um novo negócio.
Depois passa a fazer parte do repertório disponível para todos.
Essa é outra diferença entre Genesis e uma empresa tradicional.
Uma empresa normalmente começa pelo produto e depois constrói uma força de vendas capaz de distribuí-lo.
Aqui distribuição também ajuda a descobrir o que deveria existir.
O afiliado não é apenas a última ponta do sistema.
É uma das maneiras pelas quais o sistema sente o mundo.
Rafael conhece pessoas que nós nunca conheceríamos.
Marina conhece outras.
Uma mãe em Recife conhece outras.
Um rapaz em Manaus conhece outras.
Juntas, essas pessoas formam algo muito mais poderoso do que uma equipe de pesquisa tentando imaginar o que o Brasil precisa.
Elas estão ouvindo.
E quando encontram algo que merece atenção, podem dizer.
Não através de um formulário chamado “enviar sugestão”.
Conversando.
“Cara, ouvi isso quatro vezes essa semana.”
Isso basta para começar.
Base também modifica a história de Marina.
Depois de perder o emprego, ela entrou pelo ViaCorretor.
Aprendeu a criar relações.
Começou a recuperar renda.
Mas Marina possui uma irmã.
A irmã faz doces.
Vende bem.
Tem cliente.
O problema aparece no fim do mês.
Ela não sabe exatamente quanto ganhou.
Dinheiro pessoal e dinheiro do negócio se misturam.
Algumas pessoas ainda devem.
Outras pagaram parcialmente.
Ela guarda pedidos em conversas.
Tem medo de esquecer alguma coisa.
Marina não precisa convencer a irmã de que ela deveria “digitalizar a gestão”.
Essa frase soaria absurda dentro da cozinha.
Pergunta apenas:
“Quer parar de ter que controlar isso tudo?”
A irmã quer.
Base começa ali.
Na primeira semana talvez faça pouco.
Ajuda a registrar pedidos.
Reconhece pagamentos.
Lembra uma cobrança.
No fim do mês explica quanto realmente sobrou.
Na segunda aprende um pouco mais sobre aquele negócio.
Na terceira mais.
A empresa da irmã começa a existir de maneira estruturada sem que a irmã tenha passado um sábado configurando a empresa.
Esse é talvez o detalhe mais importante.
A estrutura nasce da vida.
A pessoa não precisa interromper a vida para construir a estrutura.
Base observa aquilo que já está acontecendo.
Pergunta quando precisa.
Aprende.
Pouco a pouco consegue carregar mais peso.
É parecido com o que esperamos da Inteligência desde o começo.
Uma criança nasce sem precisar aprender a operar a casa.
Ela vive dentro dela.
A casa aprende sua presença.
A criança aprende sua relação com o mundo.
É contextual.
É gradual.
É natural.
Uma pessoa não deveria precisar de muito mais para começar a trabalhar por conta própria.
Talvez o primeiro passo seja apenas:
“Eu faço isso.”
Depois alguém responde:
“Eu preciso disso.”
Existe uma relação econômica.
Base pode cuidar do restante.
Essa simplicidade possui uma consequência social enorme.
Abrir uma pequena atividade deixa de exigir uma quantidade grande de conhecimento lateral.
Hoje uma pessoa pode saber fazer algo perfeitamente e mesmo assim fracassar porque não sabe cobrar.
Ou vender.
Ou organizar.
Ou emitir documento.
Ou acompanhar cliente.
Ou controlar caixa.
É uma perda estranha.
Possuímos a capacidade produtiva.
Mas colocamos uma barreira administrativa entre essa capacidade e o mundo.
Base tenta remover essa barreira.
Isso não significa que todo mundo deveria virar empreendedor.
A palavra talvez continue carregando coisa demais.
Não queremos transformar oito bilhões de pessoas em CEOs de si mesmas.
Isso seria uma espécie particularmente cruel de distopia.
Queremos apenas que uma pessoa possa oferecer aquilo que sabe fazer sem precisar construir uma organização ao redor de si.
Existe diferença.
Talvez ela faça um único serviço por mês.
Talvez cem.
Talvez pare seis meses.
Talvez outra capacidade apareça e ela mude completamente de direção.
A infraestrutura continua ali.
É uma base.
Não uma identidade.
Isso importa também para Genesis.
Quanto mais pessoas conseguem produzir renda de maneira autônoma, menor a quantidade de gente que precisa encontrar uma empresa disposta a comprar quarenta horas de sua semana.
Ainda existirão empresas.
Ainda existirão empregos.
Ainda existirão pessoas que preferem trabalhar assim.
Não precisamos destruir nada.
Precisamos criar alternativas.
Uma alternativa real enfraquece uma obrigação sem precisar proibi-la.
Se Marina sabe que pode recuperar alguns milhares de reais através das relações que construiu, o próximo emprego deixa de possuir o mesmo poder sobre ela.
Se sua irmã consegue administrar os doces sem se perder em burocracia, talvez consiga crescer.
Se João consegue trabalhar sozinho sem precisar virar administrador, talvez não precise aceitar um emprego apenas porque não suporta mais gerenciar o próprio negócio.
Cada capacidade nova muda um pouco as opções disponíveis.
É assim que a transição acontece.
Não anunciamos o fim do trabalho.
Construímos situações nas quais algumas pessoas não precisam mais dele.
Depois outras.
Depois outras.
ViaCorretor começou por uma profissão.
Base começa pelo padrão que existe embaixo de milhares delas.
E isso também melhora nossa máquina econômica.
Agora o afiliado encontra mais situações em que pode produzir valor.
Não precisa perseguir pessoas.
Não precisa transformar cada conversa em oportunidade.
Mas começa a possuir algo que qualquer bom médico possui.
Um pequeno repertório.
Ele ouve.
Reconhece.
E quando existe algo útil, apresenta.
ViaCorretor pode gerar uma participação.
Base também.
Amanhã outra capacidade pode gerar outra.
Um afiliado constrói, com o tempo, várias pequenas relações econômicas.
Não com uma única empresa.
Com pessoas diferentes usando capacidades diferentes.
Isso é importante.
Porque a primeira etapa de liberdade econômica não precisa ser uma grande renda.
Pode ser diversificação.
R$ 300 vindo daqui.
R$ 600 dali.
R$ 1.000 de outra capacidade.
Pouco a pouco, a renda deixa de possuir um único interruptor que outra pessoa pode desligar.
É uma mudança silenciosa.
Mas quem já perdeu um emprego conhece seu valor.
Genesis começa a funcionar como uma infraestrutura econômica compartilhada.
Quem constrói uma capacidade aumenta o que todos podem oferecer.
Quem encontra uma pessoa que precisa dela aumenta o alcance da capacidade.
Quem utiliza ensina ao sistema como ela funciona no mundo real.
Quem encontra um problema ajuda a melhorar.
Quem resolve o problema devolve capacidade ao conjunto.
Não existem apenas produtores e consumidores.
As fronteiras começam a ficar menos úteis.
Todos estão participando do mesmo ciclo em momentos diferentes.
Isso é o que nos interessa.
Base ainda cobrará dinheiro.
Ainda pagará infraestrutura.
Ainda precisará ser economicamente saudável.
Ainda poderá gerar muito dinheiro.
Queremos que gere.
Porque cada nova receita é matéria-prima para a transição.
Mas novamente precisamos lembrar de uma coisa.
O objetivo não é construir o maior software para pequenas empresas do Brasil.
Isso seria uma meta perfeitamente legítima.
Mas pequena demais.
Queremos construir uma situação na qual um brasileiro que sabe fazer alguma coisa possa transformar essa capacidade em uma vida digna sem precisar aprender uma segunda profissão chamada “administrar uma empresa”.
Se conseguirmos isso, teremos removido uma camada inteira entre pessoas e trabalho autônomo.
E o afiliado terá se tornado algo maior também.
Não vendedor de ViaCorretor.
Não vendedor de Base.
Ele conhece pessoas.
Percebe situações.
Tem acesso a um conjunto crescente de capacidades construídas por todos.
E pode dizer, quando encontrar uma necessidade:
“Talvez exista uma coisa que ajude.”
É assim que Genesis cresce.
Não colocando mais vendedores na rua.
Colocando mais capacidade nas mãos de quem já está nela.
João continua instalando ar-condicionado.
A irmã de Marina continua fazendo doces.
Rafael continua conversando com passageiros quando decide dirigir.
Marina continua conhecendo pessoas.
Na superfície, quase nada mudou.
É assim que sabemos que estamos indo na direção certa.
Por baixo, propostas são criadas.
Contratos existem.
Pagamentos são reconhecidos.
Clientes são lembrados.
Impostos são separados.
Conhecimento circula.
Participações são calculadas.
Novas necessidades aparecem.
Novas capacidades nascem.
Mas ninguém acorda pensando nisso.
João acorda pensando na instalação das dez.
A irmã de Marina acorda pensando no bolo que precisa decorar.
Rafael pensa em buscar a filha mais tarde.
Marina pensa no almoço.
A infraestrutura está fazendo seu trabalho.
Está deixando as pessoas viverem na superfície.
Talvez esse seja o objetivo de toda boa infraestrutura.
Fazer coisas fundamentais parecerem simples.
Água sai da torneira.
Luz aparece quando apertamos um interruptor.
E, algum dia, talvez trabalhar por conta própria seja igualmente banal.
Você sabe fazer alguma coisa.
Alguém precisa dela.
O resto acontece.